A lua parecia mais vermelha que o normal, embora meus olhos também estivessem mais
esbugalhados. Que noite! Podia sentir o cheiro de sangue dentro do meu nariz, ainda
dessecado de tanto brilho. Se eu passasse duas ou três dessa por mês o coração não
agüentaria o peso de meus trinta e poucos anos. E todo dia seguinte é a mesma coisa…
O guarda-chuva atravessado na garganta, a cabeça entre as pernas, os olhos grudados
pela remela… Só consigo me lembrar do banho tomado no meu último flash de lucidez
e do esforço sobre-humano que se torna o levantar, em mais uma busca inútil de algo
onde algo não existe.
Cada vez que saio de casa, um cubículo de cimento no quarto andar de um poleiro
do centro da cidade, rodeado de prostitutas, traficantes, viciados, assassinos,
puxadores de carro, seqüestradores, enfim, coisas normais da rotina de qualquer
cidadão de bem como eu, a possibilidade de arrumar ou não uma grana já não me incomoda
mais. O que me incomoda atualmente é como e quando eu vou voltar. Se minha noite
será aquela velha rotina de uma vagabunda no travesseiro ao lado, um pouco de brilho
no espelhinho em época de vacas gordas, ou se será mais uma incursão num não-sei-o-quê
que ainda me levará dessa para uma melhor, numa cerimônia linda, com um padréco
me dando a extrema-unção, uma representante do serviço social, uma ou duas prostitutas
me xingando por uma grana que eu devia, eu num elegante paletó de madeira compensada
com alças de alumínio barato para lembrar as minhas noites de brilho fácil, em vôos
impensados mas gloriosos, finalmente terminados, como meus ídolos, só que eu não
tenho fãs, só uma margarida jogada por acaso por alguém que provavelmente não me
conhecia o bastante. E nada posso fazer a não ser esperar o dia seguinte, que às
vezes chega a ser três dias depois da minha última lembrança, e agradecer a não-sei-quem,
por conseguir lançar para fora da cama os fragmentos do meu corpo, primeiro os membros
inferiores, gradativamente o tronco, os membros superiores, e por fim, a cabeça,
que de tão pesada parece ser um ser à parte, precipitando-se e me dizendo, baixinho,
ei cara, não confie tanto em suas veias, elas podem lhe pregar uma peça.
A semana foi péssima. Nenhum golpe bem sucedido, nenhuma transação concluída, nenhum
otário no meu caminho. Creio que terei que usar minha última cartada: Nancy. Nunca
fui de grandes escrúpulos, muito menos de compaixão, mas não sei por que me odeio
cada vez que tenho que recorrer à Nancy… uma moça de bem. Não de bem como eu, mas
realmente de bem. Trabalha como caixa numa pequena farmácia que só ela, inocente
como veio ao mundo não vê que é só fachada para um laboratório de destilação de
cocaína, de propriedade de um chinês tão nojento quanto as baratas que habitam minha
dispensa, por um salário de desempregada, treze horas por dia, seis dias por semana,
e ainda é capaz de me dizer, mês ou outro que apareço em sua casa, que sou um bom
homem, de quem adoraria criar os filhos e levar uma vida pacata, cheia de restrições
e limitações, e não cansa de perguntar quando vou resolver largar esse negócio de
comércio exterior e arrumar um cargo de gerente numa boa firma por aqui mesmo, para
ajeitarmos nossas vidas… pobre Nancy, jovem fêmea no cio, selecionada criteriosamente
entre todo o vômito da vida que não quero pra mim.
eu com um sorriso enorme, que ia de uma orelha à outra, quase separando sua cabeça
em duas partes, imitando um tampão de vaso sanitário. Me encheu de beijos e agradeceu
a deus por eu ter um patrão bonzinho, que me concedeu uns dias de folga. Tomamos
um bom banho, daqueles que eu não via há semanas, preparei um veneno que ela achou
delicioso para bebermos em meio a algumas sacanagens, um ou dois barbitúricos e só,
senão ela percebe, e não sou eu quem vai demolir seu castelo, onde na verdade se
abrigam meu oportunismo e minha falta de caráter. Ela leu meu horóscopo para a semana,
eu li o dela, quanta besteira, ouvi um pouco de seus planos para o futuro e finalmente
o jantar: espaguete ao molho branco, com pedacinhos de bacon, azeitonas pretas e
presunto picado, além de um pernil natalino - estamos em março! - que ela havia
guardado para mim do nosso último encontro, de onde tive que sair às pressas para
tratar de uns negócios no exterior. Comi como nunca, aliás, sempre que vou lá me
empanturro, e não sei por que, acabo me lembrando de mamãe, que apesar de não ter
sido tão santa, que deus a tenha, era uma boa pessoa, embora nunca tenha conseguido
acertar o ponto do ovo frito… coitadinha. Não me esqueço daquela noite em que, depois
de tirar o ovo esturricado da frigideira com óleo semanal, jurou que o próximo seria
perfeito, pois já sabia onde vinha errando todos esses anos, mas, infelizmente,
não sobreviveu àquela bomba caseira… Talvez tenha sido a preocupação com o ovo frito.
Eu vivia lhe dizendo que se ela cozinhasse tão bem quanto fabricava bombas, abriríamos
um restaurante e poderíamos viver sem problemas, mas ela já emendava dizendo que
nessa vida precisávamos nos especializar em alguma coisa, e ela havia escolhido
a pólvora ao invés do fermento. Ela era realmente boa, e se gabava sempre de que
nunca aconteceria com ela o que aconteceu com papai, em Marrocos, que ao dar o toque
final numa grande encomenda acabara ficando sem a cabeça e todo o resto que a sustentava.
Ironia do destino, talvez.
Amanhece o dia. Furtivamente me ponho de pé, ainda sinto o perfume dela misturado
ao meu odor inebriante e promíscuo, lavo a cardina da alma e me troco num silêncio
solitário. Despeço-me com um beijo cuspido na testa da minha bela adormecida, o
mesmo bilhete da última vez, creio que da anterior também, uma satisfação, uma prestação
de contas, espécie de permuta em que ela acredita, e parto para outro dia, sempre
chuvoso e nebulento. Com alguns trocados que timidamente pedi à Nancy para o táxi
na noite anterior, pois disse a ela que só tinha uma de quinhentos, fiz um rango
no Bright, um boteco de uns amigos meus que só entra quem tem muita convicção de
onde está entrando ou quem não está nesta vida para porra nenhuma. Ainda sobrou
um troco para uma luz mais tarde, onde pude ouvir, nitidamente, alguém me recomendando
cuidar melhor do meu cérebro, e quando me olhei no espelho, era todo cérebro, marrom
e sanguinoso, exposto às mãos ásperas de qualquer demente que pudesse ver o mesmo
que eu.
A falta de grana deveria ser considerada um crime social. Um cidadão como eu sujeitar-se
à falta de dinheiro? Pior é que faz apenas cinco dias que estive com Nancy… Se eu
aparecer lá novamente em tão pouco tempo, ela me arrasta pra igreja. Ainda por cima,
tem aquele turco terrorista ex-cliente de papai e mamãe que não sai do meu pé, querendo
que eu faça uma bombinha para ele levar aos ares uma embaixada qualquer… Eu já disse
a ele que tenho fortes motivos para não entrar nesse tipo de negócio, mas ele é insistente
e eu estou duro, o que nos possibilita um acordo, afinal, uma bombinha a toa não
vai fazer a diferença.
Eu devia ter entrado nessa há mais tempo. Nunca ganhei dinheiro tão fácil. Como
pôde acontecer aquilo com papai e mamãe? É como roubar o doce de uma criança. Vejo,
pela primeira vez, a possibilidade de arrumar uma ocupação, prá variar, e não viver
de míseros golpes aqui e ali… Tudo pronto. Só falta agora ajustar este detonador
um pouquinho para a direi… BBBUUUUMMMM!!!