Bunda virada para o sol, rosto colado no chão, fio de saliva escorrendo e molhando
a calçada, maquiagem borrada, batom ressequido, pernas de fora, pois a saia curta
não cobria nada. Os braços estirados para trás, uma bolsa abandonada no lado direito,
perto da sandália pertencente ao pé esquerdo.
Amaral Gurgel esquina com Major Sertório, ao lado de uma cabina telefônica. Parado
no semáforo, eu podia ver as pessoas praticamente saltarem aquele corpo. Percebia-se
que ele respirava, tinha o rosto esverdeado sob a maquiagem e aquele pedaço de maçã
entalado na garganta…
Certamente esta pessoa se atrasará, se atrasará muito. Na verdade, não chegará a
lugar algum por um bom punhado de horas, e talvez isto importe a ninguém. Alguém
parou e cutucou aquele corpo. Ele se mexeu, se sentou e pediu um cigarro. Alguém
lhe deu um cigarro e outro alguém o acendeu. Ele inalou e exalou a fumaça com desobrigação,
com um alívio cômico entre o que já acontecera e o que ainda estava para acontecer.
Finalmente a ambulância chega. E a polícia também.
"Ele não prestava mesmo", diz o homem ao policial. "Eu só queria me divertir com
ele, me arrumei toda, me maquiei, me perfumei, nós nos encontramos, tomamos um drinque,
talvez dois ou mais, e de alguma maneira eu vim parar aqui… aquele filho da puta",
"Tá legal, como é que foi o negócio, ele simplesmente te bateu, te largou no chão
e foi embora?" perguntou o policial, desacreditado, "É", disse ele, "aquele filho
da puta."
Pessoas olhavam à distância, afinal, era um dia diferente. Pareciam excitados pois
não eram o homem sentado na calçada. Outros até se divertiam enquanto agradeciam
não serem "aquilo" sentado na calçada… tudo era igualzinho à TV, talvez melhor…
Dois caras da ambulância se aproximaram. Um deles perguntou ao policial se o homem
podia caminhar ou ia precisar de uma maca. O homem disse "claro que posso caminhar",
e se levantou, ajeitou a saia como pôde, tentou cobrir os peitos e ensaiou alguns
passos em direção à ambulância, mas seus membros não estavam em sintonia com sua
dignidade, ou com a dignidade que ele queria dar àquela já humilhante cena, a dignidade
de se levantar e caminhar, firme e ereto para a ambulância, como uma pessoa qualquer
em dia com sua cidadania, indo ao médico fazer um exame de rotina. Foi aí que
ele perdeu o equilíbrio e caiu. A cabeça bateu forte no chão uma vez, e como uma
bola, pingou e bateu de novo. Mas ele continuava vivo. Estava horrível, é verdade,
o sangue escorria feito uma bica, e o cara da ambulância ajoelhou-se sobre ele,
mas num sentimento de repulsa aparente, não o tocou…
Era um dia quente de fevereiro. No carro, Alaíde Costa cantava "Modinha":
não, não pode mais meu coração
viver assim dilacerado
escravizado a uma ilusão que é só desilusão.
ah!, não seja a vida sempre assim
como um luar desesperado
a derramar melancolia em mim,
poesia em mim
vai triste canção, sai do meu peito
e semeia a emoção
que mora dentro do meu coração.
Algumas pessoas se viraram e foram embora.
Elas já tinham visto o bastante. Outras esperaram para ver no que ainda daria aquele
ensolarado e agradável amanhecer.