Dia desses numa revista cultural, li uma pílula que questionava se as rádios tocam
porcaria para contentar o gosto popular ou se o gosto popular tem de se contentar
com a porcaria que as rádios tocam.
Sempre me inclino a tomar o partido do "porcarias para o popular", já que as músicas
são produzida em série, elas se tornam apenas mais um produto comercializável, como
outro qualquer. Como um relógio, uma calça jeans ou um celular, as músicas são padronizadas
para serem consumidas e atenderem às necessidades de público - leia-se mercado -,
funcionando quase que exclusivamente como valor de troca por dinheiro para quem
a produz e não para enaltecer o espírito do ouvinte (embora algumas músicas, mesmo
empacotadas, consigam tocar alguns corações, mas não por muito tempo).
E por quê se empacota música? Porque vende. E por quê vende? Porque é empacotada.
É muito fácil colocar um pessoal num estúdio, ditar as regras, dizer o que podem
e o que não podem fazer, como se vestir, o que falar, como se comportar, que música
tocar e como tocar.
Num desses sábados, o pessoal da velha Pyndahýba - Arnaldo Xavier, Souzalopes, Marcos
Rheis - e eu nos reunimos num boteco em Santa Cecília para umas cervejas. O som
de uma dupla caipira de violeiros rasgava todo o ambiente numa máquina musical,
dessas na qual se coloca uma ficha e se escolhe a música que você e todos os outros
querem ouvir.
Alguém na mesa reclamou do som, que realmente estava um pouco alto, mas a reclamação
também foi para a música, e começamos a discussão sobre música popular, mídia, indústria
cultural, etc.
Foi quando, depois de um silêncio gratificador, alguém se levanta e aciona a máquina
novamente. "Pai Herói" de Fábio Júnior. Aí a pergunta surgiu instantânea, quase que
naturalmente, qual a diferença entre Fábio Júnior e Nelson Gonçalves? Os dois são
bregas? Um é e o outro não? Afinal, quem não queria ter um poema seu na boca do
povo? Esta questão foi fundamental: "Quem não queria ter um poema seu na ponta da
língua da boca do povo?
Ao olhar para o lado vi uma senhora negra, aparentando seus setenta e poucos anos,
sozinha, tomando sua cerveja e cantando a música de cor. Seus olhos não negavam:
ela estava pensando no pai, provavelmente já morto… "Pai, você foi meu herói, meu
bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo…", e seus olhos, em brilho, buscavam
no vazio do horizonte uma imagem para poder apoiar o poema, a imagem do pai talvez
deixado para trás num momento precoce, ao tentar buscar uma oportunidade melhor
na vida, ou ao menos a ilusão de uma oportunidade melhor. "Pai, pode crer eu estou
bem, eu vou indo …". Talvez um olhar com um quê de arrependimento pelas coisas que
não vingaram como realmente ela desejava, mas certamente um olhar profundo nos olhos
imaginários de quem sempre será lembrado em qualquer música que contenha a palavra
pai, independente de discussões sobre o seu valor cultural ou artístico.