extraído do livro Quase (Casa Pyndahýba, São Paulo, 1998)

noites, idéias, invernos e palavras
nadas mostrados como devem ser

	engrandecer
		noite

se já não posso ser único
lúdico poço derrama água lenta

	tormenta
		noite

sereno mais que cortante
tocante mais que normal

	musical
		noite

mostra-te! insustentável ser indiferente
simplesmente afável, e me move

	renove
		noite

e te conheço cedo criança
esperança-berço ser berlinda

	entrevinda
		noite

e se não sou constante
dissonante alma me comporta

	suporta
		noite

tarde percebe lua astuta
conduta fiel, razão sufoca

	coca
		noite

crer ou não, palavras tuas
nuas nuanças de nulidade

	saudade
		noite

preserva o teu tom escuro
puro céu cor de blue

	azul
		noite

antes de dizer ao que vim
a mim deves distrair

	mentir
		noite

e já cansado de palavras minhas
daninhas constelações te ofereço

	despeço
		noite

te quero, mas de ti me livro
livro grosso que não termina

	menina
		noite.



corpo, só. sem lágrima de corpo morto, sem pétalas murchas resistentes ao tempo. deitamos o leito, sós. enrijeço minha voz, você se abre, até que finde a noite estarás disposta a ouvir. nada tenho a dizer. sóis. nascente & brilhante volto pra casa sem assunto, carne podre & conhaque. acordo ao meu lado e você não está. sósia.


tantos ouvidos eu precisaria para te calar poucas bocas você precisou para me fazer ouvir tantas idéias eu preciso para te explicar poucas armas você precisará para me morrer


quais palavras ainda podem como palavras viger? abre-te boca. levanta-te ser. uma vez que não são poucas cedo vêm deperecer. fala-te boca. mostra-te ser. se nem lutar já se pode contra isso a carcomer. berra-te boca. escancara-te ser. o que resta ainda se o grito asila poder? cala-te boca. enterra-te ser.


ainda hontem ao meio-dia (ou menos) me senti moderno como nunca antes me sentira. ainda hontem ao meio-dia (ou mais) me senti danado de aflição e amanhã ainda é sábado. tal sofrimento que passou (e passa) anônimo, ninguém pode acudir. entra ano sai ano… é este o teu futuro anunciado para ninguém. mas não há de ser nada, não, oje é somente cem anos atrás. amanhã, oje será hontem e veremos que o futuro que se anunciou calado não é este: já passou ou ainda está por vir.


segunda. uma rosa parece tenebrosa neste jardim. já cedo me perdi… ônibus, livros, notícias que não li garotas bonitas e seus pobres cabelos molhados & caras amassadas (o que será no almoço?) cartão de ponto e início de semana… o mesmo alvoroço. uma garoa chora lá fora - chegou minha vez… rápido! a máscara! a máscara! não quero pecar outra vez! tenho os pés cravados no cimento, e afundo: "ao fundo… ao fundo… sumam com ele, não vale a pena este tormento!" mas é apenas o começo, nada acaba tão cedo. nem sempre podemos respeitar as horas marcadas desprezos & foras carregados involuntariamente túmulo de luz em epitáfios inundados… dentro estarão os olhares de compreensão.


terça. terceira vez que te ligo de imaginação procurando embaixo das mesas algum recado: perdoares cristalinos, gotas de lágrimas e de verdades, anônimas, sulfurosas, desinfetadas. nada. mas hoje notas musicais tomarão conta de meus pensamentos, x menos do coração, que cutuca, cutuca, k feito batuta astuta: w q g q q B um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, h h um, dois, 3, 4… } % S 5.000 vezes não! P um dia eu vou te ver U longe de olhares felinos… ?=== e ainda assim será de verdade ; como sempre foi. V 'Z K


quarta. sessões de cinema espaciais no centro da cidade: pipocas & chocolates. beijos antes e depois. escurinho de lanternas sem destino, batons & chicle… quem falar de serviço paga um bombom! chá mate com leite, liquidação de livros, cigarros (cóf! cóf! cóf!)… desaparecem as fumaças no frio da noite assim como nós. a gente se abraça, divide nosso calor. ônibus & ombros & sonos o caminho pra casa, a pé. em busca de risadas livres ainda somos diferentes dois.


quinta. vem chegando vem chegando hoje dá 7 mas não chega 5. (minto minto minto) adoro mentir e estilhaçar lógicas ou me calar. vou me calar agora! música de lius, ou prelúdio invertebrado do mais puro aço coroadas & inexplicadas vago silêncio-pausa acorrentado duro traço desesculachado de todo queromais. espero te ver não te vejo beijo…… tchau…………


sexta. alucinações perturbam o que você pensa sente vê. culturas do corpo ali cervejas & aguardentes & nicotinas aqui vez ou outra a gente quebra a rotina. coragem! coragem! baixe a guarda & a arma… moleques & molecas sujos suados sarnentos colados em sacos plásticos (entendo…) o luxo está em baixa (loucura…) umedecendo nossos olhos pequenos. icebergs fantasiados para uma manhã de verão carioca… nada convencional, nada mal… o que vou mal?


sábado. tarde sufocada em fina lágrima transparente, inexistente. telefonema compromete vontade cheia de banho de sol. mas hoje é mais foi mais será mais… chapéu largo e preto (presente dela) tranças de ouro e brincos de petróleo: não deixe naufragar nosso barco! casacos redondos e risonhos filmes sem contos… não importa se deitado sentado ou em pé duchas & hidromassagens teu corpo nu sempre virgem para que meus pecados possam te satisfazer. não exijas nada que também não desejo sejamos imperfeitos e nossas adorações ainda serão únicas…


domingo. lençóis suados e despertares de perder a hora - mas nunca haverão horas a perder. silêncioso sol de fogo assoalha meu quarto instante. programas infantis, famílias não me quero tudo só calmante (a granel) para o jogo. almoço lá em casa, chama o pessoal a gente tenta se divertir. depois cinema cerveja & pastel (e ainda assim as fadas estarão em seus ninhos) os finais sempre os mesmos missas que não freqüento (não suporto civilização) e você foi embora esquecendo de levar meu coração.