Fernando Pessoa
trois chansons mortes

i.

vous êtes belle: on vous adore.
vous êtes jeune: on vous sourit.
si un amour pourrait éclore
dans ce coeur où rien ne luit.

ce sourire de ma tristesse
se tournerait, reflect lointain,
vers l'or cendré de votre tresse,
vers le blanc mât de votre main.

mais je n'en fais que ce sourire
qui sommeille au fond de mes yeux -
lac froid qui, en vous voyant rire,
s'oublie en un reflet joyeux.

ii.
j'eus un rêve. l'aube
n'a pu soulever
du frais de as robe
mon sommeil leger.

en vain toute l'ombre
j'etait as noirceur.
mon coeur est plus sombre.
c'etait dans mon coeur.

il est mort. j'existe
par ce qui m'en vint.
quoi? j'en suis plus triste…
ah, ce rêve eteint.

faisait l'heure breve
et mon coeur moins las…
quel etait ce rêve?
je ne le sais pas.

iii.
si vous m'aimez un peu? par rêve,
non par amour…
un rien… l'amour que l'on acheve
est lourd.

faites de moi un qui vous aime,
pas qui je suis,
quand le rêve est beau, le jour meme
sourit.

que je sois triste ou laid - c'est l'ombre…
pour que le jour
vous soit frais, je vous fais ce sombre
sejour.

* * *

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
três canções mortas

i.

você é bela, jovem, bem apessoada
todos lhe adoram e lhe sorriem
fosse o amor uma flor desabrochada
neste coração onde nadas tremeluzem

este sorriso de minha tristura
mudaria, longínqua reflexão,
para o ouro pálido de sua ventura,
para o mastro branco de sua mão.

mas eu nada faço além deste sorriso
que no fundo de meus olhos cochila -
lago frio que observa riso dessiso
enquanto a felicidade no reflexo vacila.

ii.
eu tive um sonho. a aurora
não podia se levantar
pesado vestido sem memória.
no meu sono singular

em vão toda a escuridão
abandonada no escuro
estava lá em meu coração...
neste mesmo coração impuro.

ele morreu. quem mais existe?
eu existo para o que sobrou
qual o quê? hoje sou mais triste…
apagado sonho enfim se acabou.

feito o momento tardonho
o coração menos esmorecido…
o que era enfim este sonho?
eu não teria nunca sabido.

iii.
se você me ama um pouco? quase nada,
não de amor, mas de sonho…
um nada… o amor que se acaba
acaba sendo enfadonho.

faça de mim alguém para te querer,
não este alguém que vivo
quando o sonho é bonito, o amanhecer
se torna ele próprio altivo.

seja eu triste ou feio - um fantasma…
para que lhe seja fresco o dia,
lhe ofereço este quiasma
sinistra em mim estadia.

* * *

Autopsychography


The poet is a mere dissimulator
His dissimulation seems so real
That he even dissimulates the dolor
The dolor which he can really feel.

And those who read his writes,
In the pain chore feels well,
Not both the pains he delights,
But the one which no one tells.

Thus in the gutters of the Funny wheel,
Spin, spin, to put my mind apart
This convoy of rope made of steel
This convoy of rope called heart.

traduções | home